Como fui barrada na imigração da Irlanda e parei na prisão

Por Rachel Duarte


Já viajou para algum lugar e se hospedou em um hotel (ou hostel, apartamento, pensão, seja lá qual foi a sua escolha) que era a maior furada? Se você costuma viajar isso com certeza já aconteceu com você. Quarto velho com cheiro ruim, vizinhança barulhenta, a foto no site era muito mais bonita, hospedagem all inclusive com comida ruim, ter seus pertences furtados… Tirando o furto, todas essas situações já aconteceram comigo e quanto mais a gente viaja, mais experiente em evitar essas situações a gente fica, mas às vezes alguma surpresa ruim pode acontecer.

Eu já passei por um perrengue imenso durante minha viagem à Dublin, na Irlanda. Ninguém jamais ficou em um hotel tão inusitado e inesperado como o que eu me hospedei. 

Você já deve saber que em alguns lugares como na Turquia, Boston, Oxford e Estocolmo, antigas prisões, que estão desativadas, foram transformadas em hotéis e que, diferente dos tratamentos dos antigos prisioneiros, os hóspedes recebem regalias e são muito bem tratados.

A minha hospedagem em Dublin foi um pouquinho diferente dessa experiência. Cela fria. Grades. Não escolher sua própria comida. Conviver no mesmo ambiente com pessoas estranhas. Fazer cocô e xixi na frente dessas pessoas estranhas. Desconfiar de todas essas pessoas estranhas. Ver o céu somente uma vez por dia. Lidar com o perigo. Se transformar em um perigo. Ter limites para tudo. Ficar enjaulada. Encarcerada. Ser presa de verdade! 

Sim, a minha hospedagem, se assim podemos dizer, foi em uma prisão real e não em um presídio que virou um hotel luxuoso. E eu não fui levada de transfer em carro chique, foi no camburão da polícia mesmo. 

Como eu fui parar na prisão em Dublin

Para explicar essa situação nada maravilhosa, vou começar contando tudo do início. 

Em dezembro de 2009 fui para casa da Clarisse, uma amiga que estava vivendo em Praga (República Tcheca). Já que era pertinho, resolvi passar o ano novo em Edimburgo (Escócia) com a Priscila, uma outra amiga que estava vivendo em Dublin. Então o plano era o seguinte: dia 30 de dezembro eu sairia de Praga rumo à Dublin e no dia 31 eu e Priscila iríamos para Edimburgo passar nosso réveillon no famoso festival Hogmanay, do qual estávamos mega empolgadas porque acontecem festas de rua, várias bandas de música se apresentam, procissão de tochas e outras coisas… uma programação muito maneira. Se quiser saber mais, assiste esse vídeo aí:

Para quem vai sair de outro continente rumo à Europa, é necessário apresentar alguns documentos junto ao agente de imigração no aeroporto, como: seguro viagem, passagem de retorno, local de hospedagem, entre outros. E mesmo já estando na Europa, caso a viagem seja feita de um país que faça parte do Tratado Schengen para outro que não faça, e vice-versa, todos esses documentos são exigidos. República Tcheca faz parte do Tratado, porém Reino Unido não faz. Para o local de hospedagem, é possível que seja uma reserva de hotel/hostel/apartamento ou uma carta de um morador dizendo que o mesmo irá te acomodar na casa dele, e essa foi a minha opção. Afinal eu ia dormir na casa da Priscila! Porém Priscila estava com receio de fazer a carta por não ser nativa da Irlanda ou de qualquer outro lugar da Europa e resolveu pedir para uma amiga dela, a Beatriz, que tinha dupla cidadania mas que eu nunca tinha visto na minha vida fazer a tal carta. A partir dessa informação você já pode imaginar qual foi a merda que deu! Decorei todas as informações básicas de Beatriz: nome completo, endereço, nomes dos pais, o que ela fazia em Dublin, quanto tempo ela morava lá, local de trabalho, estado civil, quantos irmãos ela tinha, nome do papagaio, cachorro, cavalo e periquito. Chegando na imigração eu estava segura que tudo ia dar certo, afinal eu sabia absolutamente tudo sobre Beatriz, até o número do sapato que ela calçava. 

Na fila, tentei ver a cara do agente mais simpático, mas foi óbvio que eu fui escolhida pelo o mais ranzinza e ovo virado que ali estava trabalhando naquele dia! Ele me pediu todos os documentos e comprovantes, fez todas as perguntas e todas as respostas bateram, até ele virar para mim e questionar:

- Quanto tempo você conhece a Beatriz? 

Puta merda! Que pergunta mais cagada! Eu nunca conheci a Beatriz, cara! Chutei:

- Uns sete anos.

Sei lá, eu gosto do número 7. 

- Vou ligar para ela para confirmar, tá?

O que eu iria responder a não ser um balanço positivo com a cabeça? Eu estava um liquidificador por dentro, mas tentava transparecer a cara mais anja possível.

Ele virou o corpo meio de lado e falou com ela, olhou para a minha cara com ar de reprovação. Desligou o telefone:

- Você é uma mentirosa. Quer fazer vida por aqui. Você não vai entrar. 

- What!?!?!

Eu ainda disse que a minha outra amiga (a que eu realmente conhecia), a Priscila, estava me esperando na sala de desembarque. Gentilmente ele ligou para ela e disse:

- Sua amiga não vai entrar na Irlanda. 

Desligou o telefone. 

O liquidificador interno foi para a área externa e eu já tava toda me tremelicando da cabeça aos pés. Que puta merda que eu me meti! Fui levada para uma sala toda de vidro e me deixaram lá por uns 30 minutos, sem celular, bolsa, mala ou qualquer outro pertence. Era eu comigo mesma. Depois eu fui levada à uma outra sala, onde dois agentes da polícia federal começaram a me questionar. Conheci uma terceira sala, essa zero acolhedora com um vaso sanitário de aço inox acoplado com a pia em um canto. Fui transferida para a quarta sala. Sem sacanagem! Acho que estavam testando quanto tempo eu aguentava andar nervosa por todos os cantos de cada uma. Ninguém me falava nada o que estava acontecendo ou o que iria acontecer.

Fui chamada. Vi minha bolsa no chão e finalmente pude pegá-la, mas não sabia onde estava a minha mala e meu celular. Me colocaram sentada em um banco ao lado de um portão onde se via um rastro de luz da rua. No banco de frente havia uma menina desesperada. Eu estava completamente nervosa, mas não sabia o que ia acontecer. Talvez ela soubesse…

O portão se abriu e fomos levadas para fora, onde entramos em um camburão! Meu coração até estremeceu só de lembrar desse fato. Camburão, meu irmão! Camburão de aço inox. Frio. Quem entra em um camburão?! Comecei a chorar feito criança. Queria a minha mãe. Queria mesmo. A menina começou a falar comigo, era brasileira. Puta que pariu, brasileiro só faz merda! Mas não faço ideia o que ela fez, não ouvia o que ela falava, não estava conseguindo absorver informação nenhuma naquele momento. As lágrimas só escorriam. O camburão parou. Havia um policial dirigindo e um carona. Eles abriram a porta e tiraram a menina. Fiquei sozinha. Era dezembro. Irlanda. Inverno. Frio. Chuva. O camburão balançava de um lado para o outro. Gritei pela minha mãe. Nunca fiquei tão desesperada na vida. Os policiais voltaram e eu perguntei para onde eu estava indo. Silêncio! 

Paramos em frente a um portão, mas eu não conseguia enxergar direito e definir que lugar era aquele, até o camburão entrar e passar pela placa escrita “Female Prison”.

O que aconteceu comigo na prisão

Nessa hora eu fiquei enlouquecida e qualquer interpretação de choro de novela mexicana é esdrúxula perto da minha reação. Eu soluçava. E não entendia nada.

Adivinhem para onde me levaram assim que entrei na prisão? Para uma sala! Quinta sala do meu dia. Essa tinha o piso em madeira e as paredes verdes. Um verde feio, claro, meio misturado com amarelo. Sem janela. Arhhh que agonia. E também tinha um vaso sanitário acoplado com a pia num canto. Não sei mensurar quanto tempo me deixaram ali. Andei por todos os cantos. Sentei no chão. Levantei. Deitei. Tentei abrir a porta. Tudo em prantos. 

Me tiraram de lá e, você vai achar que eu tô de sacanagem mas não tô não! Fui para a sexta sala! Acho que nessa fiquei menos tempo. Na verdade eu estava tão aterrorizada que era muito difícil calcular o tempo…

Me levaram para um banho. Não era opcional e nem privado. Tive que me ensaboar na frente de duas policiais que contaram todas as minhas tatuagens, piercings, estrias, curvas, manchas… E ainda tiveram a pachorra de me oferecerem xampu e condicionador para passar no cabelo. Quem está preocupada em lavar o cabelo em uma hora dessas?

Não tinha uniforme, tive que usar a mesma roupa que estava usando o dia inteiro. Só tive que tirar meu cinto, afinal eu poderia me enforcar. 

Uma agente veio esclarecer algumas coisas, me disse que eu não poderia entrar na Irlanda mas sem dizer o porquê. Perguntei quanto tempo ficaria presa, ela não me disse. Eu não parava de chorar, todo o terror de ficar presa em um cela, com grades, com um bando de gente estranha começou a tomar conta de mim. Eu não entendia mais nada do que ela falava. Eu já não ouvia mais nada. Pedi uma ligação, nos filmes eu aprendi que todo preso tem esse direito. Ela disse que mais tarde eu poderia ligar para alguém mas que naquele momento ela ia trazer uma brasileira, que também estava presa, para poder me ajudar e me acalmar. 

Apareceu uma mulher hablando espanhol, com calça e casaco Adidas, braços arqueados, toda fancha me acariciando e dizendo que ia pedir para me colocarem no mesmo lugar que ela que assim ela ia poder me acalmar. Era só o que estava faltando para completar! Sem preconceitos, eu só não curto e isso não me acalmou em momento algum! 

A mulher Adidas foi embora e me levaram para um pátio. Já estava escuro. Cruzei esse pátio e entrei em uma casa. Subi as escadas e uma porta foi aberta. Vi um quarto com três camas, carpete no chão e outros móveis. Parecia um quarto comum e não uma cela. Ouvi uma voz brasileira. Brasileira de verdade. Não lembro o nome dela, mas ela me abraçou e me trouxe uma dose de calma naquele momento. Sentei, respirei e ela começou a conversar comigo. Ela era tranquila e me dava conforto, mas sem segundas intenções. A parada era genuína. 

Reparei que havia uma outra mulher no quarto. Ela falava inglês e me informou que era da África do Sul. Contei para elas o que havia acontecido e elas me informaram que volta e meia alguém vindo do aeroporto ia parar ali, mas que não ficavam muito tempo por lá. Ufa! Mas quanto pouco tempo é esse?

Fui me acalmando e reparando que no quarto havia fogão, forno, microondas, máquina de lavar roupa, televisão, dvd, banheiro com porta… Porra e tiraram meu cinto achando que eu ia me enforcar?!! Tinha um forno e facas no quarto! Cadê a cela fria, com grades e pessoas estranhas fazendo cocô e xixi umas na frente das outras?

A sul africana tinha uma máquina de enrolar cigarros. Ela me ofereceu um. Aceitei. Tinha uma janela e fui tentar abrir, mas claro que ela não abria. Elas perguntaram se eu não queria tomar um outro banho, com mais calma, e usar roupas mais confortáveis para dormir que elas iriam me emprestar. Aceitei também. Só dormi porque minha cabeça pesava e meus olhos ardiam e não aguentavam mais estarem abertos

Como foi o meu primeiro dia completo na prisão

Era dia 31 de dezembro e o café da manhã era feito no quarto, preparado pelas detentas. Tive achocolatado e pão com queijo. A porta ficava aberta, mas preferi ficar o tempo todo no quarto. Não sei o que tinha lá fora e estava um frio absurdo. Olhei pela janela e duas agentes passeavam com os cachorros no pátio. Eram dois Golden Retriever lindos. 

A brasileira (poxa, como me arrependo de não lembrar do nome dela), começou a conversar comigo. Era bom para passar o tempo e tentar distrair minha cabeça. Perguntei o que ela estava fazendo ali e ela me disse que foi pega tentando entrar em Dublin com trouxas de cocaína no estômago e que, para conseguir fazer isso, havia primeiro treinado a engolir uvas. Tinha feito isso para poder alimentar o filho. Meu coração doeu, dava pra sentir que ela era menina boba do interior, sabe? Ela estava ali há 3 anos. Perguntei sobre a sul africana e ela me disse que também foi por cocaína, porém em maior quantidade carregada na mala. 

Elas presas por tráfico de drogas. Eu por uma mentira idiota. Ela também me disse que são oferecidas atividades durante o dia, como aulas de inglês, informática, cabeleireiro e costura. Ela estava fazendo aulas de inglês, mas naquele dia não iria para me fazer companhia. 

O almoço foi no refeitório com as outras presidiárias. Pude escolher uma refeição vegetariana. Horrível! Nesse momento consegui observar outras mulheres. A maioria se mostrava conformada com a situação e seguia a vida. Vi algumas esquisitas, que pareciam perturbadas. A brasileira me contou que muitas vão parar ali por abuso de drogas também. Acabamos de comer e retornamos para o quarto. Mas no caminho informei a uma agente sobre a ligação que ainda não havia conseguido fazer. 

Fui chamada e levada para uma sala. Finalmente vou fazer a ligação, eu pensei. Mas não. Me levaram para conversar com a diretora que não me disse nenhuma novidade e perguntou se eu estava bem e se eu precisava de alguma coisa. Eu disse que precisava urgentemente avisar a alguém que eu estava ali e que também tinha que tomar meu anticoncepcional que estava na minha bolsa e queria cigarros. Tudo o que eu queria ela não ia me dar, então esses foram os meus pedidos. 

Em outra sala (quantas vezes essa palavra já foi citada nesse texto?) sentei de frente para uma agente que me pediu o telefone para o qual eu queria ligar. Disse que não sabia de cabeça e que o número estava em um caderninho na minha bolsa. Depois de um tempo me entregaram o caderno e ela discou para a Clarisse. Ela começou a ligação dizendo de onde estava ligando e que passaria o telefone para mim. Atendi e Clarisse começou a rir meio irritada perguntando que piada sem graça de ano novo era aquela. Eu disse que não era piada e ela perguntou o que eu tinha tomado, que droga experimentado para brincar desse jeito. Eu comecei a chorar feito criança. Não conseguia mais falar. Passei o telefone para a agente que explicou e falou no meu lugar. Retornou a ligação para mim e Clarisse disse que ia tentar fazer de tudo para me tirar dali. Me senti um pouco mais aliviada, alguém sabia onde eu estava. 

Voltei para o quarto e pouco tempo depois a brasileira e a sul africana disseram que iam sair para trabalhar, elas coletavam os lixos. Era a primeira vez que eu ficava sozinha. Minha vontade era de fechar a porta, mas eu era uma novata e não sabia se podia. Resolvi ficar quietinha assistindo televisão, era algum filme… Não lembro qual. De repente chegaram na porta e disseram que tinha uma ligação para mim. O presídio é formado por sete casas e em cada uma delas há uma cozinha comunitária com quartos individuais ou divididos por duas ou três mulheres. Nessa cozinha há um telefone. Era Clarisse dizendo que estava tentando ligar para as embaixadas brasileiras em Dublin e em Praga. A mãe dela, que estava no Brasil, tentou as embaixadas irlandesas e tchecas no Brasil. Nada. Absolutamente nada. Era dia 31 de dezembro, quinta-feira. O dia seguinte era dia 1º, feriado, e depois sábado e domingo! Ela perguntou se queria que avisasse aos meus pais e eu pedi que não. Não ia adiantar, eles só iam se preocupar e não iam poder fazer nada. Era melhor esperar para ver o que ia acontecer.

Vi algumas meninas recebendo remédio nessa cozinha. Não faço ideia do que seja. Me entregaram uma pílula do meu anticoncepcional e voltei para o quarto, me restando somente ver televisão. 

Algum tempo depois, minhas companheiras de quarto retornaram do trabalho e trouxeram um panetone que haviam roubado sei lá de onde. Roubaram?! Sim, elas estavam se regenerando super direitinho ali dentro!  Disseram que era para a gente comemorar a noite de réveillon. A partir das 19:30, todas as casas são trancadas, então ninguém pode sair para as áreas comuns. Uma certa hora todas as mulheres foram para as janelas dos seus quartos, era possível ver os vultos de cada uma delas. Começaram os fogos nas ruas de Dublin e as luzes dos quartos acendiam e apagavam, em alvoroço. Todas acenavam e gritavam tentando se fazerem ouvidas pelas demais. Foi emocionante. Foi a primeira vez que eu sorri.

Fui tentar dormir envolvida naquela mistura de emoções que estava sentindo. Nessa noite foi mais difícil, mas os olhos pesados ajudavam no processo. 

Era de madrugada ou bem cedinho, não sei que horas eram mas estava escuro, uma agente bateu na porta do quarto e me chamou, disse que era para eu ir embora. Era milagre de 1º de janeiro! Levantei na mesma hora, devolvi as roupas que a brasileira e a sul africana me emprestaram e me despedi delas, agradecendo tudo o que elas haviam feito por mim nesse meu curto período como presidiária. 

Retornei ao aeroporto sem saber se seria deportada ou não. Resolvi perguntar a um agente da imigração e ele me informou, brincalhão, que eu iria para o Paquistão. Ele riu e disse para eu não me preocupar que eu voltaria para Praga. Ufa!!! Finalmente minha “festa” de réveillon iria acabar! 

Sete anos se passaram e nenhuma virada do ano foi tão intensa, louca e estranha como essa. 

A Dóchas Centre é um penitenciária feminina de segurança média que faz parte da Mountjoy Prison, que abriga a maior população carcerária da Irlanda. Foi feito um documentário mostrando um pouco como é a vida dessas mulheres. Se quiser, assiste aqui embaixo:


Compartilha, deixa a notícia viajar por aí, vai!


Dá uma olhadinha aqui ó:


Irlanda - uma semana viajando de carro

Praga: Staré  Město

mulher-viajar-sozinha-dia-internacional

Ser mulher e viajar sozinha